O café não tem glúten. A Coca-Cola também não, como a maioria dos refrigerantes. A armadilha está noutro lado: no café de cevada, vendido em Portugal e no Brasil como alternativa sem cafeína, nas bebidas maltadas e em alguns achocolatados. Eis o que se pode beber sem pensar, e o que é preciso ler.
Café tem glúten?
Um grão de café é a semente de um fruto, torrada. Não há cereal numa bica nem num café de filtro. A AIC, a associação italiana de celíacos, classifica como permitidos o café, o descafeinado, as pastilhas e as cápsulas. A DZG, na Alemanha, cita o café entre as bebidas seguras do pequeno-almoço (no Brasil, café da manhã).
A AIC chegou a estudar as pastilhas de papel: segundo os fabricantes italianos, o invólucro é de celulose e resina, sem glúten. Servem, portanto, se contiverem café puro. As pastilhas de outras bebidas quentes — chocolate, cappuccino, ginseng — são consideradas de risco.
O café solúvel é um caso intermédio: a AIC classifica-o «de risco», não proibido. Um solúvel puro continua a ser café; são as misturas 3 em 1, os cappuccinos em pó e os preparados aromatizados que acrescentam ingredientes a verificar.
Café de cevada: a verdadeira armadilha
É o ponto central do artigo. O café de cevada tem glúten, porque é feito de cevada torrada. E bebe-se muito mais do que se pensa:
- em Portugal e no Brasil, as bebidas de cevada, sozinha ou misturada com chicória, vendem-se como alternativa ao café;
- em Itália, pede-se «un orzo» ao balcão como quem pede um expresso, também em cápsulas e solúvel;
- na Alemanha, o Caro Landkaffee é um clássico: a Nestlé publica a composição — cevada, malte de cevada, chicória e centeio, dois cereais com glúten em quatro ingredientes.
A AIC classifica os sucedâneos de café e as bebidas à base de cevada como proibidos, exceto os que têm a menção «sem glúten». Existem cafés de cevada tratados para baixar o glúten abaixo de 20 ppm. Mesmo para esses, a associação sugere um consumo moderado ou ocasional: o glúten foi reduzido, não estava ausente à partida.
O café com ginseng, especialidade dos bares italianos, é em geral um preparado solúvel com vários ingredientes. A AIC classifica-o «de risco».
A chicória pura é uma raiz torrada, sem cereal. São as misturas de «chicória e cevada» ou os «cafés de cereais» que é preciso ler — e são muitas vezes essas as que se encontram no supermercado.
No Brasil, uma armadilha a mais. A adição de cevada ou milho ao café moído é uma fraude conhecida. A associação da indústria do café, a ABIC, atribui desde 1989 um Selo de Pureza a cafés controlados, sem mistura de outros cereais. E desde a Lei n.º 10.674, de 2003, todo o alimento industrializado vendido no Brasil tem de indicar «contém glúten» ou «não contém glúten».
Cápsulas e cafés aromatizados
As cápsulas de café puro não levantam problemas particulares. As perguntas frequentes da Nespresso, consultadas em setembro de 2026, indicam que os seus cafés não contêm alergénios, glúten incluído. E esclarecem um ponto útil: quando uma descrição fala de notas «maltadas» ou «de cereal», trata-se de aromas naturais do grão, não de um ingrediente adicionado.
O que é preciso ler são as cápsulas de outras bebidas — chocolate, cappuccino, leite, cevada — e os cafés aromatizados, em grão ou moídos. Na UE, se a cevada ou o trigo entrarem na receita, têm de estar destacados na lista de ingredientes. É o que deteta o leitor da Nutrixe: «cevada», «malte», «trigo» ou «centeio» na lista, e o veredicto passa a vermelho.
Coca-Cola e refrigerantes
A Coca-Cola indica no seu site francês que a bebida não contém nenhum dos catorze alergénios do regulamento europeu 1169/2011, entre os quais os cereais com glúten. A AIC classifica as colas, gasosas, águas tónicas e refrigerantes, incluindo as versões light e zero, como permitidos.
Os refrigerantes quase nunca são o problema. A única exceção a ter em mente: as bebidas maltadas e as «cervejas sem álcool», que em geral continuam a ser cervejas de cevada, salvo menção «sem glúten». Falamos delas no artigo sobre as cervejas sem glúten.
Achocolatados e bebidas maltadas
Aqui as receitas mudam muito de uma marca para outra, e de um país para outro.
A AIC classifica os preparados para bebidas de chocolate e cappuccino «de risco»: podem levar malte, farinha ou cereais. A DZG alemã cita o cacau em pó puro entre os produtos seguros. O cacau não é o problema; o que se lhe junta, pode ser.
| Produto | O que diz a fonte | Glúten |
|---|---|---|
| Nescau (Brasil) | Site oficial: «CONTÉM GLÚTEN», pode conter aveia, cevada e trigo | Sim (menção obrigatória) |
| Ovomaltine | Perguntas frequentes oficiais (site suíço): «composta em grande parte por extrato de malte de cevada», desaconselhada a intolerantes ao glúten | Sim |
| ColaCao Original (Espanha) | Perguntas frequentes oficiais: contém farinha de trigo | Sim |
| ColaCao Sin Gluten, ColaCao Puro (Espanha) | Perguntas frequentes oficiais: sem glúten | Não, segundo a marca |
| Banania Traditionnel (França) | Lista registada no Open Food Facts: cereais biscoitados (farinha de trigo, farinha de cevada, trigo maltado) | Sim |
Fontes consultadas em setembro de 2026. As receitas mudam: vale o rótulo do produto que tem na mão.
O caso do Nescau é instrutivo: nenhum cereal com glúten na lista de ingredientes, mas a menção «contém glúten», acompanhada de um «pode conter aveia, cevada e trigo»: o que se declara é o risco de contaminação. Para um celíaco no Brasil, a regra é simples: a menção manda, mesmo quando a lista parece limpa.
Para as bebidas maltadas, a regra também é simples: o malte é cevada germinada, e é a própria base da bebida. O nosso artigo sobre o malte explica as palavras que enganam (maltodextrina, maltose) e as que não enganam.
No café e nas cadeias
Ao balcão, o café em si raramente é o risco. Há três coisas que o são mais:
- A bebida de aveia. Base de muitos galões e lattes, é feita de aveia, muitas vezes contaminada com trigo se não for certificada. A AIC classifica as bebidas de aveia «de risco». Explicamos porquê no artigo sobre a aveia.
- Xaropes e coberturas. Bolacha triturada, sabor «cookie», cereais sobre a espuma: são eles que trazem o glúten, não o expresso.
- O que acompanha. A bolachinha no pires, o pastel, o pão de queijo feito na mesma cozinha que o pão de trigo.
As grandes cadeias têm cada uma as suas práticas: dedicamos um artigo à Starbucks.
A base da Nutrixe conta 300 cafés 100 % sem glúten, onde se pede o café e o que o acompanha sem fazer perguntas. Alguns exemplos:
- Pandan, em São Paulo — restaurante e café 100 % sem glúten em Pinheiros, fundado por Daniella Kobayashi depois do diagnóstico de doença celíaca.
- Rice Me Deli, em Lisboa — pastelaria-cafetaria 100 % sem glúten, certificada pela Associação Portuguesa de Celíacos. Falamos dela no guia de Lisboa sem glúten.
- TACCOFF, em Buenos Aires — café-padaria certificado sin TACC em Palermo, café de especialidade; 4,4 em mais de 2.500 avaliações.
- Caffè Valiani senza glutine, em Pistoia — pastelaria-bar histórica, totalmente sem glúten, para um pequeno-almoço à italiana.
- Rada Coffee & Rösterei, em Heidelberg — torrefação e café-restaurante 100 % sem glúten, cozinha venezuelana à base de farinha de milho.
Fotos e listas de ingredientes: Open Food Facts, base de dados colaborativa com licença aberta, consultada a 26 de setembro de 2026. As receitas mudam: faz fé o rótulo da embalagem que tem na mão.
Em resumo
- O café em grão, moído, descafeinado, em cápsula ou em pastilha de café puro não tem glúten.
- O café de cevada tem glúten; mesmo «sem glúten», a AIC aconselha moderação.
- Café solúvel, café com ginseng, cappuccino em pó: a verificar.
- A Coca-Cola e os refrigerantes habituais não têm glúten.
- Achocolatados: o cacau puro não é o problema, os preparados leem-se; o Nescau declara «contém glúten».
Dúvidas com uma embalagem? O leitor da Nutrixe lê a lista de ingredientes e deteta a cevada, o malte ou o trigo onde não se esperam, em todas as línguas do rótulo. Conhecer a aplicação.