Um pacote de Ursinhos de Ouro comprado em Lisboa, em Londres ou em São Paulo tem o mesmo nome, o mesmo logótipo e muitas vezes as mesmas cores. Não é o mesmo produto. Nenhuma grande marca de doces garante a mesma receita em todo o lado, e o que o rótulo diz sobre o glúten muda de país para país, às vezes para a mesma goma. Eis o que cada marca declara nos seus próprios sites oficiais, país a país, em setembro de 2026.

Porque é que uma marca muda de receita de um país para outro

Uma marca mundial não tem uma fábrica, tem dezenas. Cada uma compra os ingredientes no mercado local: o xarope de glicose pode vir do milho ou do trigo, o amido da batata ou do trigo. E cada país tem as suas regras de rotulagem. Resultado: dois doces com o mesmo nome podem ter listas de ingredientes e avisos diferentes.

O exemplo mais claro são os ursinhos da Haribo. Nos Estados Unidos, a lista oficial começa por « glucose syrup (from wheat or corn) » e inclui corantes artificiais. Em Portugal e na Alemanha, são corados com concentrados de frutos e plantas. No Brasil, a receita leva água, óleo de palma e corantes como a tartrazina. O mesmo ursinho, três receitas.

Saco de Goldbears da Haribo vendido nos Estados Unidos
Haribo — Goldbears, Estados Unidos (3 lb)Ingredientes: glucose syrup (from wheat or corn), sugar, gelatin, dextrose (from wheat or corn), contains less than 2% of: citric acid, artificial and natural flavors, palm oil, palm kernel oil, carnauba wax, white beeswax, yellow beeswax, yellow 5, red 40, blue 1. Xarope de glicose e dextrose « de trigo ou milho », corantes artificiais: é a receita americana.
Saco de Goldbären da Haribo vendido na Alemanha
Haribo — Goldbären, Alemanha (1 kg)Ingredientes: Glukosesirup; Zucker; Gelatine; Dextrose; Fruchtsaft aus Fruchtsaftkonzentrat Apfel, Erdbeere, Himbeere, Orange, Zitrone, Ananas; Säuerungsmittel: Citronensäure; Frucht- und Pflanzenkonzentrate: Saflor, Spirulina, Apfel, Holunderbeere, Orange, Schwarze Johannisbeere… Corados com concentrados de frutos e plantas; o site alemão da Haribo avisa ainda de possíveis vestígios de trigo.

A Deutsche Zöliakie Gesellschaft (DZG), a associação celíaca alemã, di-lo com todas as letras sobre a sua base de dados de produtos: só vale para produtos vendidos na Alemanha, e um alimento com o mesmo nome fabricado no estrangeiro ou para exportação pode conter ingredientes com glúten. É a regra a guardar para tudo o que se segue.

Haribo, o caso de escola

A Haribo aparece nas pesquisas « sem glúten » em português, francês, alemão, inglês, italiano e espanhol. É também a marca onde as respostas mais divergem de país para país.

País O que diz o site oficial da Haribo (setembro de 2026)
Portugal Ursinhos de Ouro: « Pode conter vestígios de leite, trigo »
Espanha, França, Alemanha, Itália Ursinhos (e, em França, Tagada e Dragibus): possíveis vestígios de trigo. Verificado só nestas gomas
Brasil Ursinhos de Ouro: « PODE CONTER TRIGO, SOJA, CENTEIO, CEVADA, AVEIA E TRITICALE. CONTÉM GLÚTEN. »
Reino Unido Os produtos fabricados no Reino Unido « do not contain gluten », exceto os Pontefract Cakes (com trigo); alguns importados indicam « may contain traces of gluten »
Estados Unidos Goldbears: xarope de glicose e dextrose « de trigo ou milho », « may contain wheat »; a Haribo não exclui vestígios de glúten

Três notas para ler este quadro.

O xarope de glicose de trigo não é o problema. Na União Europeia é tão refinado que está isento da rotulagem de alergénios; explicamos porquê no artigo sobre maltodextrina e xarope de glicose. A menção « pode conter vestígios de trigo », pelo contrário, assinala um risco de contaminação na fábrica.

Algumas Haribo contêm mesmo trigo. As gomas em forma de esparguete e o alcaçuz são os exemplos típicos: os Pontefract Cakes britânicos, os Spaghetti Morango brasileiros (farinha de trigo), e a Haribo dos Estados Unidos indica que usa ingredientes com trigo em alguns produtos. Um pacote sortido pode misturar gomas de receitas diferentes.

Os « vestígios » não pesam o mesmo em todo o lado. No Brasil, cada embalagem tem de indicar « contém glúten » ou « não contém glúten » (Lei 10.674 de 2003) e, segundo a FENACELBRA, a Anvisa exige « contém glúten » sempre que há risco de contaminação cruzada. Na Europa, « pode conter » é voluntário e não quantificado: a decisão é sua. O nosso artigo sobre vestígios de glúten explica como os celíacos e as suas associações decidem.

Nutella e cremes de barrar

No site alemão, a Ferrero afirma que a receita da Nutella é « a mesma no mundo inteiro »: açúcar, óleo de palma, avelãs, leite magro em pó, cacau magro, lecitina de soja, vanilina. Nenhum cereal.

A diferença está no que a Ferrero escreve ao lado:

  • o site italiano acrescenta « Senza glutine » debaixo dos ingredientes, também para a Nutella Plant-Based;
  • o site alemão responde nas perguntas frequentes que o creme « ist glutenfrei »;
  • o site norte-americano diz que o creme é sem glúten, mas não a Nutella & Go, a Nutella Biscuits nem a Nutella B-ready;
  • o site francês dá os ingredientes sem qualquer menção ao glúten.

Na prática: o creme clássico não tem ingredientes com glúten. Os derivados são outra conversa. A Nutella & Go leva palitos ou pretzels; a Nutella Biscuits e a B-ready não são sem glúten segundo a Ferrero. E os crepes, waffles ou muffins « com Nutella » de uma banca ou da pastelaria são pastelaria comum, quase sempre com farinha de trigo.

Kinder, Milka, Lindt

Kinder: o mesmo chocolate, menções diferentes

Na Kinder, tudo depende do produto.

  • Kinder Chocolate e Kinder Surpresa (Kinder Ovo no Brasil): as listas de ingredientes publicadas pela Ferrero não têm cereais. O site brasileiro indica « NÃO CONTÉM GLUTEN » no Kinder Ovo, o italiano « SENZA GLUTINE ». Os sites francês e britânico não dizem nada sobre glúten.
  • Kinder Bueno contém farinha de trigo (site britânico).
  • Kinder Joy contém farinha de trigo, amido de trigo e extrato de malte de cevada (site britânico).

O Kinder Surpresa e o Kinder Joy parecem-se na prateleira: um ovo e um brinquedo. Um não tem cereais na receita; o outro tem três ingredientes de trigo ou cevada.

Embalagem de três ovos Kinder Joy
Kinder — Kinder Joy, França (60 g)Ingredientes: Sucre, graisses végétales (palme, karité), LAIT écrémé en poudre 19,5%, farine de FROMENT, cacao maigre 3,5%, amidon de FROMENT, pâte de cacao, extrait de malt d'ORGE, émulsifiants : lécithines [SOJA] ; huile de tournesol, protéines de LAIT… Farinha de trigo, amido de trigo, malte de cevada: os três ingredientes de cereais aparecem também na embalagem francesa.

Lindt: o extrato de malte de cevada

A Lindt explica a sua posição em pormenor. Nas perguntas frequentes (sites britânico, canadiano e alemão), a marca indica que vários dos seus chocolates contêm glúten, como cereal ou como componente de cevada, e que quando o extrato de malte de cevada é o único ingrediente cereal, a quantidade é tão baixa que o produto fica abaixo de 20 mg de glúten por quilo. O coelho Goldhase de chocolate de leite contém « Gerstenmalzextrakt » (extrato de malte de cevada) segundo o site alemão.

Para quem quer evitar qualquer ingrediente cereal, o site britânico da Lindt cita chocolates feitos sem cereais nem malte: Excellence 70 %, 85 %, 90 % e 99 %, Excellence branco com baunilha, Lindor morango com natas e Lindor de chocolate branco. O site canadiano dá uma lista um pouco diferente (Excellence de 70 % a 100 %) e diz que a Lindt não pode garantir chocolates « 100 % sem glúten ». Mais uma vez, a lista depende do país.

Sobre o malte de cevada e porque é que umas associações o aceitam abaixo de 20 ppm e outras o desaconselham, veja o nosso artigo sobre malte e vinagre de malte.

Milka: o rótulo e mais nada

Nos sites oficiais da Milka que consultámos em França e na Alemanha não encontrámos listas completas de ingredientes nas fichas de produto nem uma posição sobre o glúten. Sem fonte oficial, não diremos se uma tablete Milka tem ou não glúten. A gama mistura tabletes simples e tabletes com bolacha (Milka Oreo, Milka LU no site francês), que levam bolachas e, muito provavelmente, farinha de trigo. Só o rótulo da tablete que tem na mão decide.

Gomas de supermercado e marcas próprias

As gomas de marca própria (a « marca branca ») são muitas vezes fabricadas por terceiros, que podem mudar de contrato para contrato. Uma receita de marca própria não tem razão para se manter no tempo, nem para ser igual de um país para outro na mesma cadeia: as gomas do Continente, do Pingo Doce ou de qualquer outra insígnia têm de ser verificadas de cada vez.

As associações sabem-no e publicam listas, mas são nacionais e muitas vezes reservadas aos sócios: a base de dados da DZG na Alemanha, o anuário da AFDIAG em França, a lista digital da FACE em Espanha, o Prontuario da AIC em Itália, que classifica rebuçados e chocolate entre os alimentos « de risco ». Em Portugal, a referência é a Associação Portuguesa de Celíacos (APC); no Brasil, a FENACELBRA. Nenhuma destas listas vale para um produto comprado no estrangeiro.

A armadilha da viagem. Em casa conhece as « suas » gomas seguras. No estrangeiro, o mesmo nome pode esconder outra fábrica. Leia o rótulo como se visse o produto pela primeira vez, sobretudo no Brasil, nos Estados Unidos ou em lojas de doces importados.

Os ingredientes a vigiar

Nas gomas e no chocolate, o glúten raramente está no ingrediente principal. Procure:

  • farinha de trigo: gomas em forma de esparguete, alcaçuz, rebuçados recheados, chocolate com bolacha ou wafer;
  • extrato de malte de cevada: chocolate de leite, cereais estaladiços, bolinhas cobertas;
  • cereais estaladiços ou tufados: o arroz tufado não tem glúten em si, mas por vezes leva aroma de malte, e os flocos ou bolinhas de trigo são frequentes;
  • amido não especificado: na UE o amido de trigo tem de ser indicado como tal; noutros países as regras variam;
  • avisos de vestígios: « pode conter trigo », « may contain gluten », « peut contenir du blé ».

O xarope de glicose e a maltodextrina, mesmo de trigo, não são um problema na Europa. O malte quase sempre é.

Ler o código de barras antes de comprar no estrangeiro

Decifrar um rótulo em alemão ou em francês de pé num corredor leva tempo. O leitor da app Nutrixe lê a lista de ingredientes do código de barras e diz-lhe o que encontra: um ingrediente com glúten, malte, um aviso de vestígios, ou nada disso. Nunca lhe diz « isto é sem glúten » no seu lugar: mostra o que a lista contém e o que falta confirmar. O leitor é gratuito e ilimitado: ver a aplicação.

Para a Páscoa, quando os ovos e coelhos de chocolate multiplicam as armadilhas, temos um artigo próprio: ovos de Páscoa sem glúten. E para o aperitivo: batatas fritas de pacote e glúten.

Fotos e listas de ingredientes: Open Food Facts, base de dados colaborativa com licença aberta, consultada a 26 de setembro de 2026. As receitas mudam: faz fé o rótulo da embalagem que tem na mão.

Em resumo

  • A mesma marca não tem a mesma receita nem as mesmas menções em todos os países: os ursinhos Haribo norte-americanos, portugueses e brasileiros são três produtos diferentes.
  • A Haribo Portugal avisa de vestígios de trigo; a Haribo Reino Unido declara que o que lá fabrica não contém glúten; a Haribo Brasil escreve « contém glúten ».
  • O creme Nutella não tem cereais; a Nutella & Go, a Biscuits e a B-ready não são sem glúten.
  • O Kinder Surpresa e o Kinder Chocolate não têm cereais na receita; o Kinder Bueno e o Kinder Joy têm.
  • Alguns chocolates Lindt, como o Goldhase de leite, levam extrato de malte de cevada, abaixo de 20 ppm segundo a marca.
  • As listas das associações são nacionais: não valem para um produto comprado no estrangeiro.

Informação verificada em setembro de 2026. As receitas mudam sem aviso. Estes dados vêm dos sites oficiais das marcas e das associações nessa data; só o rótulo da embalagem que compra faz fé.